Fichamento: Herman Hertzberger

    Na obra Lições de Arquitetura, Herman Hertzberger apresenta conceitos fundamentais sobre como a arquitetura deve considerar a conexão entre os aspectos técnicos e as relações humanas e sociais que acontecem dentro dos espaços. A partir de sua análise de conceitos, é possível fazer uma leitura crítica dos ambientes/construções e de como eles se comunicam com a comunidade e entornos.

    Inicialmente, os termos público e privado podem ser entendidos como coletivo e individual. Um espaço público é aquele com acesso livre a todos e de responsabilidade coletiva, de cuidado e manutenção, como uma praça. Já o espaço privado possui acesso restrito, sendo mantido por um grupo ou indivíduo específico. A Escola de Arquitetura e Design, por exemplo, apesar de ser um espaço público enquanto instituição estatal, é na verdade utilizada por um grupo restrito, alunos, professores e funcionários, o que a torna um espaço privado na prática.

    Essa gradação entre o público e o privado também pode ser percebida na entrada da faculdade. A transição da rua para o interior do prédio é marcada pela praça e pelo hall de entrada, que funcionam como zonas intermediárias. Os vidros permitem uma comunicação entre exterior e interior, tornando o espaço acolhedor. Essa estratégia arquitetônica traduz o conceito de gradação territorial, que de forma convidativa promove uma passagem suave entre os níveis de acesso do prédio.

    No entanto, nem todos os espaços seguem essa lógica. Ainda usando a EAD como exemplo, o corredor que leva à peixaria, por exemplo, apresenta problemas de leitura espacial. A mistura de escadas abertas com trechos escondidos, janelas e até mesmo carros estacionados dificultam o entendimento do local. A circulação é desorganizada, o acesso parece restrito e a sensação é de um espaço mal resolvido. Segundo Herzberger, isso interfere diretamente na apropriação do lugar pelas pessoas e vai contra a ideia de uma arquitetura que favorece o uso coletivo e espontâneo.

    Essas observações também se relacionam com os conceitos de funcionalidade, flexibilidade e polivalência. Em muitos espaços do mundo é possível perceber usos diversos, desde circulação e convivência casual até exposições ou depósitos, mostrando como um espaço pode ir além de sua função original. Já outros locais, mesmo com potencial, ainda não são apropriados pela comunidade, permanecendo subutilizados.

    Hertzberger também destaca o valor das irregularidades nos espaços e as ideias de urdidura e trama. A estrutura pensada pelo arquiteto e os usos reais que surgem com o tempo. Elementos como desníveis, cantos esquecidos ou superfícies marcadas pelo tempo podem ser reinterpretados como oportunidades de apropriação, desde que o projeto incentive essa liberdade de uso. 

    Em resumo, a arquitetura defendida por Hertzberger é aquela que se abre à vida cotidiana, permitindo múltiplos usos e significados. 

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